AS INOVAÇÕES DA 27ª BIENAL DE SÃO PAULO.

“COMO VIVER JUNTO”

           
            A 27ª Bienal de São Paulo (07 de outubro a de dezembro de 2006) foi inspirada em dois pilares: o tema " " foi emprestado do título de um curso dado por Roland Barthes (1915-1980) no Collège de France (1976-1977) e na contribuição da obra e experiência de vida do artista brasileiro Hélio Oiticica (1939-1980) e seu “Programa Ambiental” (Programas para a Vida e Projetos Construtivos). Completando a proposta foram incorporadas as idéias do artista Marcel Broodthaers (1924-1976) com a sua crítica às instituições museológicas e o uso da arte como forma de ação e crítica social e política.
           
Esta última edição da Bienal de São Paulo diferenciou-se das anteriores a iniciar pela data de inauguração, em janeiro e não em outubro como era de praxe. A própria metodologia de apresentação da mostra utilizou-se de Seminários com temas específicos, para discutir com o público em geral, a concepção do evento. No mais, diferenciou-se pelos projetos educacionais realizados nas periferias; pelas paralelas (exposições em outros espaços culturais, mostras de filmes transversais ao tema); pelo intercâmbio dos artistas residentes e pelo fim das representações nacionais. Tais proposições relacionam-se com o tema “Como Viver Junto”, porém como se verificou, na Bienal existem algumas contradições também ao cumprir o tema proposto, como, por exemplo, a censura de algumas obras, como é o caso do “Guaraná Power”, refrigerante desenvolvido por plantadores de guaraná da Amazônia em parceria com o Superflex.

A curadora Lisette Lagnado acredita que Hélio Oiticica é capaz de ser integrado ao universo conceitual de Barthes, visto que a obra de Oiticica atesta o vinculo indissociável entre vida e arte, convocando o espectador a sair de sua passividade e a interagir com a obra. Além disso, o seu conceito de “Projetos Construtivos” relaciona os vários aspectos de como as pessoas constroem o seu espaço social; e seu outro conceito “Programas para a vida”, fala de como as pessoas colocam em prática relações comunitárias.
           
Já Barthes discorre sobre como pensar a relação do sujeito com o outro. Ele não tem uma resposta objetiva para elucidar o “Como viver junto”, mas enfatiza o seu lado positivo com relação a isso, é a sua fantasia da idiorritmia em que o ritmo de cada ser encontra o seu lugar harmonicamente. “A que distância devo me manter de meus semelhantes para construir com os outros uma sociabilidade sem alienação?” (Roland Barthes). Lisette Lagnado definiu o itinerário do Hélio Oiticica como tentativa de responder a principal questão do Seminário. Essa distância, no caso de Oiticica, passou pela preservação do seu próprio ritmo.

            As principais propostas da curadora Lisette Lagnado que a fizeram quebrar padrões das exposições anteriores realizada pela Fundação Bienal buscam, principalmente acabar com a elitização da arte, com a exclusão social do conhecimento e com a clausura da exposição que antes ocorria somente dentro do pavilhão. Para tanto, a 27ª Bienal de São Paulo, foi ampliada tanto temporal, quanto territorialmente.

            Com os Seminários iniciados em janeiro de 2006 e, com os projetos educacionais Bienal-Escola e Centro-Periferia, a curadora deu a oportunidade para que o público interessado entendesse melhor os conceitos da Bienal e assim pudesse ver a exposição com olhos mais críticos. Com exposições paralelas, a Bienal foi estendida para além da exposição, favorecendo também o acesso aos conceitos inspiradores da mostra. O festival de cinema com filmes relacionados ao tema, por exemplo, acrescentou subsídios para as discussões. A ampliação territorial ocorreu também, não muito longe do local da exposição, com algumas obras expostas no jardim ao lado do pavilhão, no Parque do Ibirapuera, como é o caso da passarela do grupo japonês Atelier Bow Wow, que sai do prédio principal.
          
  Um projeto de expansão da Bienal para além da suas próprias fronteiras, que pode ser considerado temporal e territorial ao mesmo tempo, é o dos artistas residentes e o conceito da abolição dos artistas nacionais. O primeiro, propõe que artistas estrangeiros ao residirem no Brasil por alguns meses, pudessem encontrar temas que fossem tanto particulares do lugar, quanto universais. Como a própria curadora nos relata no texto de apresentação do GUIA da Bienal: “Dez artistas estrangeiros vieram confrontar aqui sua “imagem-Brasil”, como diria Hélio Oiticica, mesclando suas experiências com descobertas locais”. (Lagnano, 2006).

             Como pólos foram escolhidos para as residências: a capital Rio Branco, por não ter um foco de arte contemporânea, e por ser um lugar com pouco intercâmbio cultural. Baseado na própria posição geográfica, o colombiano Baraya criou uma árvore inteiramente de borracha, material tão próprio e típico desta região; São Paulo, por ser uma cidade muito parecida com outras grandes metrópoles mundiais, mas com idiossincrasias para se revelar, e por ser “a capital mundial das contradições” segundo o artista italiano Francesco Jodice e Recife, escolhida pelo seu processo histórico e cultural, seguindo esta via o artista Meschac Gaba elaborou uma cidade feita de açúcar, remetendo ao próprio ciclo do açúcar ocorrido na região nordestina.  Nesse sentido, a proposta da Bienal põe em prática o multiculturalismo e o interculturalismo. Assim, relatam situações de acordo com os seus pontos de vista de uma maneira conotativa para o publico local.

            A abolição dos artistas nacionais (indicados pelos governos dos paises convidados) foi uma inovação ousada. O grupo de curadores, ao visitarem pessoalmente os ateliês de diversos artistas em vários paises, quebrou a regra do artista-representante da imagem do seu pais. Nesta Bienal foram convidados artistas pouco conhecidos do público. Dessa forma, quebrou-se uma hierarquia, por colocar artistas convidados no mesmo patamar dos artistas, por assim dizer, “oficiais”. A abolição de artistas nacionais é também, uma forma de dar espaço para artistas menos conhecidos e com visões e trabalhos que nem sempre retratam os seus paises da maneira como os seus governos gostariam que fossem retratados e divulgados.

            A organização do evento também teve base inspirada no tema “Como Viver Junto”. Esta Bienal não possui apenas Lisette Lagnado como curadora. Foi criada uma equipe de co-curadores, o que também é inédito. “Democracia se faz a partir do dissenso e não do consenso”, afirma Lagnado Além disso, não apenas especialistas em arte foram convocados e sim, especialistas das mais diversas áreas como antropologia, psicanálise, ciência política, historiadores da arte, por exemplo.

            De fato não só o formato dos seminários, como também o simples fato de eles existirem como forma de esclarecimento dos conceitos, estão a par de Barthes, pois ele reivindicava a imbricação da arte no político, ou seja, na partilha da experiência comum.Além disso, acreditava que os seus seminários apenas inauguravam uma pesquisa em que todos poderiam contribuir dando continuidade ao estudo.Seis seminários fazem parte do projeto:
 1) Marcel 30, organizado por Jochen Volz, ocorreu nos dias 27 e 28/01/06, discutiu as questões-chave da obra de Broodthaers, como a anti-teoria e a crítica ás instituições;
 2) Arquitetura, organizado por Adriano Pedrosa, ocorreu nos dias 31/03 e 01/04/06, discutiu a relação entre arte e arquitetura;
3) Reconstrução, organizado por Cristina Freire, tratou da construção de novas formas de expressão, da reconstrução de comunidades destruídas e do ressurgimento de movimentos artísticos afogados pelas guerras;
4)Vida Coletiva, organizado pela Lisette Lagnado(04-05/08/06), que trouxe a discussão do tema-geral, Como Viver Junto;
5)Trocas, organizado por Rosa Martinez (09-10/10/06), defende a idéia de intercambio como uma maneira mais otimista de relação entre as pessoas;
6) Acre, organizado por José Roca (10-11/11/06), discute temas como fronteira  e território, índios e ocupações.

                        A curadora Lisette, ao afirmar que é preciso aumentar o nível de recepção critica e não se submeter ao gosto médio, está defendendo que é possível sim fazer uma Bienal com conceitos complexos, contanto que se dê acesso a eles (seminários e programas educacionais) e não, como muitos acreditam que os conceitos devem ser fáceis para que todos entendam. É a partir desta idéia que o projeto educativo, dividido em dois veios de ação, o projeto Bienal-Escola, que agora não consiste apenas nas visitas guiadas de alunos, mas também, na capacitação de professores da rede estadual e municipal com curso e material didático gratuitos; e, o Projeto Centro-Periferia: “Como Viver Junto” que montou atividades locais em cinco pontos estratégicos com a intenção de promover um intercambio cultural. As atividades estão ocorrendo em: Zona Sul (CEU Casa Blanca e Jamac), na Zona Leste (CEU Aricanduva e CEU Parque São Carlos) e na Zona Noroeste (CEU Vila Atlântica), em parceria com ONGs,em que o publico alvo são as pessoas que não estão na escola, um novo público crítico que está sendo formado.

 

     
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