ALMOÇO NU
WILLIAM BURROUGHS
 
   


Flash branco...o inseto mutilado grita...

Acordei com gosto de metal na boca, de volta dos mortos rastreando o cheiro incolor da morte.

Placenta de murcho macaco cinzento

Dores fantasmas da amputação...

Trens de pó queimam através de circunvoluções róseas da carne intrumescente... disparam lâmpadas flash do orgasmo... fotos casuais de movimento preso... o lado marrom liso raspa para acender um cigarro...

Estava ali de pé, com um chapéu de palha de 1920 que alguém lhe dera de presente... suaves e mendicantes palavras caem como pássaros mortos na rua escura...

Um mar palpitante de britadeiras na penumbra púrpura tingida com cheiro podre de metal dos gases do esgoto... rostos de trabalhadores jovens vibram e saem fora de foco em halos amarelados de lanternas de pilha... canos rompidos expõem suas entranhas... um navio apita, buzinas, foguetes explodem sobre lagoas poluídas... arcadas de máquinas de fliper se abrem para um labirinto de fotos pornográficas...canhão cerimonial retumba no porto... um grito ressoa num corredor branco de hospital... se perde por uma rua larga e empoeirada por entre palmeiras; assobia através do deserto como uma bala, asas de abutre se agitam no ar seco, mil garoto esporram de uma só vez nas privadas, em banheiros deserto de escolas públicas, em sótãos, porões, em casas sobre as árvores, rodas gigantes, casas abandonadas, cavernas de calcário, barcos a remo, garagens, celeiros, subúrbios cheios de cascalhos e vento atrás de muros de barro, cheiro de escremento seco... poeira preta que sopra sobre esbeltos corpos de cobre... calças em frangalhos que caem sobre pés descalços rachados e sangrentos... um lugar onde os abutres disputam cabeças de peixes... nos lagos das selvas peixes viciosos abocanham esperma branco que flutua na água suja, moscas de areia moredm o cu de cobre, macacos uivam como o vento nas árvores, uma terra de grandes rios pardos onde flutuam árvores inteiras, cobras de cores brilhantes nos galhos, lêmures pensativos contemplam a margem com olhos tristes, um avião vermelho traça arabescos traça arabescos na substância azul do céu, uma cascavel ataca, uma serpente se empina, estica-se e cospe veneno branco, escama de pérola e opala caem em lenta chuva silenciosa pelo ar claro...

Adeptos de ofícios obsoletos e inconcebíveis balbuciando em etrusco, viciados em drogas ainda não sintetizadas, traficantes do mercado negro da Terceira Guerra Mundial, praticantes de sensibilização telepática, osteopatas do espírito, investigadores de infrações denunciadas por suaves jogadores de xadrez paranóides, servidores de multas fragmentárias escritas em hebefrênica taquigrafia acusando indescritíveis mutilações do espírito, funcionários de estados policiais ainda não constituídos, corretores de sonhos estranhos e nostalgias testadas nas células sensibilizadas da doença da droga e trocadas pela matéria prima da vontade, bebedores do fluido pesado lacrado no translúcido âmbar dos sonhos.

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