"Que você viva em tempos interessantes"
Antiga maldição chinesa
     
 
Estamos vivendo em tempos interessantes.

Desde que começamos a povoar este pequeno planeta, muitas coisas estranhas aconteceram. Quando se olha bem de perto, pode-se perceber que a história da humanidade é tão estranha que acabamos anestesiados, achando tudo muito normal e previsível. Não perceber a estranheza das coisas é estar muito longe da pureza.

Nesta admirável história cheia de pavor e surpresa, podemos observar alguns momentos que resultaram em saltos quânticos no rumo da civilização. A descoberta do bronze e o estabelecimento da agricultura. A revolução industrial. A era das telecomunicações e das distâncias encurtadas. Como qualquer macaquinho pelado esperto pode perceber, a distância entre estas redefinições de realidade é cada vez menor. Se este macaquinho se esforçar
um pouco mais, sentirá que está se formando outra grande brincadeira do universo com a espécie humana.

Excetuando-se algumas moscas, budas e mendigos, poucas pessoas podem precisar com exatidão a natureza desta nova Revolução em nosso conceito de existência.

As raízes do que está por vir parecem estar nos últimos estertores desta era da informação. A cada segundo que passa, a cibernética se infiltra em campos diferentes do ambiente humano, cavando aos trancos e barrancos novos caminhos dentro da mente.
 
     
 

 

A quantidade de informação disponível é assustadora: qualquer cidadão mediano recebe em um dia mais informação do que um campônio medieval, ou uma tribo neolítica. A tecnologia se sofistica a intervalos cada vez menores. A distância da criação da escrita para a invenção dos tipos móveis foi maior do que o intervalo de tempo que separa o surgimento da televisão dos primeiros passos nos ambientes de realidade virtual.

O binômio tecnologia e informação, aliado ao fator velocidade, está causando um adorável estrago na consciência humana, que provavelmente culminará em uma nova Revolução, a maior de todas até agora. Alguns utópicos imaginam um momento onde esta velocidade na difusão da informação e da sofisticação tecnológica chegará a tal ponto que a humanidade terá acumulado, nos últimos segundos, mais conhecimento do que em toda sua história anterior. Este momento crucial causará uma ruptura de proporções pantagruélicas no mapa que define a existência humana (apenas no mapa: o território nunca mudou, e, que eu saiba, não tem essa intenção).

Este singelo instante foi batizado de Ponto Ômega. Alguns chamariam de Apocalipse. É, amigos, estamos pendurados de cabeça para baixo na beira do abismo.

O negócio é estar preparado, pois quem não tiver a Marca dos Escolhidos na fronte vai dançar bonito. Até a Ciência, esta linda donzela renitente, está farejando algo de estranho no ar. A crescente aceitação do relativismo e de uma visão holística são apenas alguns sintomas de uma bola de neve que se iniciou na Física, com os trabalhos de Einstein, Schrödinger, Heisenberg, Bell e o resto da turma. Pergunte a qualquer cientista: está em curso uma reformulação de paradigmas sem precedentes. Eles talvez não saibam, mas estão pavimentando a estrada pela qual a Besta vai passear, sapateando em nossos corpinhos. Ao mesmo tempo, estão preparando seus cérebros (e os nossos) para a experiência do Apocalipse.

Ao longo da caminhada humana, algumas criaturas não esperaram pelas Revoluções e resolveram recauchutar o Universo sozinhos. Usando técnicas geralmente discordantes, causaram o Ponto Ômega em suas próprias realidades pessoais e tentaram transmitir o que viram para seus confrades. Nem sempre a mensagem foi compreendida ou bem recebida, mas isto costuma ser responsabilidade do receptor (fnord.).

Cada qual, a seu modo, criou guias de viagem para Momento que estava por vir. E, como qualquer um sabe, conhecer lugares novos com o auxílio de um guia é deveras salutar: depois de visitar todos os lugares que ele indica, aprendemos a explorar o ambiente sozinhos, encontrando nossas próprias atrações turísticas. Quem se dedica com afinco a esta tarefa acaba por escrever seu próprio guia, que por sua vez causará o mesmo efeito em outros viajantes, que por sua vez, que por sua vez, que por sua vez.

Ciberxamanismo é isto: um guia fractal de viagem por realidades mutantes e um manual de instruções para o Apocalipse. Como foi dito anteriormente, seu vizinho que passa o dia assistindo televisão recebe mais informações em um dia do que os seus antepassados distantes recebiam em toda a vida. Observai, infiel: foi dito que nosso amigo Zé recebe toda essa informação, mas não ousei afirmar que qualquer um sabe o que fazer com elas. Quem se aproximar do livro com inocência e coragem suficientes receberá esta dádiva. Como bônus, terá seu universo retalhado em milhões de peças e será incitado a montar tudo novamente. No final, acabará descobrindo que falta uma das peças, mas não se incomodará: terá aprendido que o importante é o montar, não o quebra-cabeça.
Ou não.
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Enquanto isso, no Delta Sul de Saturno:
Toda a tribo de Crianças Vodu permanecia em silêncio, contemplando a intrincada dança dos Anéis. Não lembravam há quanto tempo estavam sentados ali; não tinham memória além de vinte e três segundos no futuro. Sem que nenhum sinal específico surgisse em meio à tribo, o garoto que seria um dia conhecido como !O desviou o olhar dos Anéis e afirmou, com a voz firme que não sabia possuir:

"Há realidade".

Daniel Pellizzari