Um ciberxamã informatizado moderno é o que foram os copistas dos monastérios
até a invenção da imprensa. Criamos a realidade que vai ser lida, vista e
vivida nos séculos que virão - embora hoje só possamos pensar em anos, meses
ou dias, já que o tempo parece correr exponencialmente. Não trabalhamos mais
para uma instituição específica, como a Igreja ou o Estado.
A era da cultura
de massa tem seu fim decretado neste milênio: em 50 anos as Cruzadas ou a
Beatlemania vão ser consideradas insanidade coletiva. Trabalhamos pela
liberdade individual. Já vivemos em uma tribo global que não admite outra.
Não temos que lutar contra o Islã, não temos que xingar o imperialismo
americano, não temos que ser patriotas ou ficar reclamando das crenças e
costumes dos outros, os "pagãos". Vivemos a aldeia, vivemos a festa entre
amigos, sempre no âmbito de nossas realidades virtuais partilhadas, onde
nossa imagem e nossa voz vão ao espaço e retornam noutro ponto do globo.
Vivemos o tribal com os nossos, nos identificando em nossa falta de
identidade.
Qual a validade e qual a utilidade de se classificar o mundo em um sistema
arbitrário? Não estamos apenas rotulando as pessoas, os fenômenos, a vida?
Não estamos limitando as coisas ao conceito?
Uma pessoa desperta percebe os níveis de metaprogramação em que trabalha, e
realmente vê, sem o filtro sujo do julgamento, seu ambiente e as outras
variáveis. Isso não depende apenas do raciocínio e habilidade, mas sim do
grau de subjetividade que a pessoa tolera. Da sua capacidade de ficar sem o
sentido, de apreender sem processar. "Só como pequenas criancinhas
conseguireis entrar no reino dos céus" a maioria dos ditos seguidores
atuais do xamã que proferiu essa simples regra de conduta são os primeiros a
atirar pedras e julgar com base em suas morais medievas; por quantos
traidores não terão passado essas palavras?
|