Bagunceiro criativo e agitador cultural, León Ferrari transfere à sua obra a tensão latente ao abordar temas políticos e religiosos com um teor inovador que mistura o poético, o ácido e o provocativo.
Em toda sua trajetória percebe-se o experimentalismo questionador de ordens pré-estabelecidas, que subverte o rigor estrutural concebido por um sistema que direciona o pensamento num sentido único e desconsidera as multiplicidades. Nos anos 50 e 60, inciou seu trabalho com esculturas figurativas inspirado pela idéia de desconstrução da forma. Essas esculturas, feitas com arame de aço inoxidável entrelaçados e emendados entre si compõem, geralmente, estruturas propositalmente verticais (justamente para subvertê-las), organizadas numa geometria cujo intuito é tornar difuso o rigor construtivo e promover a desconstrução da escultura.
Esse caráter poético é reafirmado pela série de desenhos que simulam a escrita, manuscritos em que os traços da caligrafia são desenhos e escritura ao mesmo tempo a que dá o nome de “Cartas a um general”. Dando vazão ao processo de politização do conteúdo em sua produção.
Num período em que o cenário é alarmante (a Guerra do Vietnã toma proporções ainda mais drásticas, com mais bombardeios, mais mortes, mais torturas), Leon Ferrari volta o enfoque de sua produção à política e propõe o objeto “Civilização ocidental e cristã ”, em que coloca um Cristo crucificado sobre as asas de um avião bombardeiro norte-americano, relacionando religião e violência de uma maneira provocativa e polemizando os sistemas heirárquicos e seus símbolos.
No final dos anos 60, León Ferrari participou do projeto “Tucumán arde”, um coletivo artístico de ativismo político. O grupo é tido como um dos precursores da arte conceitual na América do Sul pela sua proposta de usar a arte como meio para fazer política, por tomar o trabalho de arte como um processo, realizá-lo longe do circuito de exibição e mostrá-lo, depois, em forma de documentos e registros, dentro e fora dos museus e galerias.
Nesse período o artista sofre perseguição da censura e repressão instaurada pela ditadura militar na Argentina e vem para o Brasil, num auto-exílio. Em São Paulo, retoma as experiências com técnicas e suportes variados e inicia trabalhos que combinam desenhos e letras, reproduzindo planos urbanos caóticos que passa a enviar aos amigos pelo correio. Elabora também instalações sonoras como a série de instrumentos “Percanta” ou “artefatos para desenhar sons”, com os quais realiza performances que envolvem a participação do público.
Os são expostos em seu trabalho de maneira a revelar sempre suas facetas antagônicas e conflitantes. Seu posicionamento limiar e irônico rompe com o estruturalismo e questiona a imposição de símbolos opressores pela religião, por exemplo, ao unir o Cristo de oratório com um avião bombardeiro, tornando imprecisas quaisquer fronteiras pré-concebidas entre o poético e o político, o estético e o perturbador.
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