Aos 86 anos, León Ferrari é um artista polêmico. Já teve mostras censuradas e sofreu ameaças de toda espécie -a de que vai para o inferno é a mais freqüente delas. Integrante da 27ª Bienal de São Paulo, o artista argentino, que tem sua obra marcada pela contestação contundente ao cristianismo, ganha mostra retrospectiva na Pinacoteca e novo livro pela Cosacnaify. Em entrevista à Folha, falou sobre suas crenças e descrenças no campo da arte e da política e contou do período (1976-1991) em que, exilado pelo contexto político argentino, viveu no Brasil.
Artista argentino León Ferrari expõe sua anti-religião em SP
Gabriela Longman da Folha de S.Paulo
   
 




Folha - O sr. foi convidado a participar da Bienal do 'Como Viver Junto'. De que forma a entende?

León Ferrari - Para mim a escolha do tema parece acertada, não sei se tomando-a como uma pergunta ou como uma explicação. De qualquer forma, para que vivamos juntos, todos temos de comer, ter escola, atendimento médico... A forma que hoje temos de viver juntos -ou separados- é que há entre os que comem e os que não comem uma barreira policial.

Folha
- Temos, então, um problema de ordem econômica e social?

Ferrari
- Sim, mas isso não é tudo. Para que pudéssemos viver juntos seria preciso também eliminar as intolerâncias, as discriminações, pelas quais a responsável é a religião, especialmente o cristianismo. A maior das intolerâncias é justamente aquela que anuncia que vai castigar, com torturas eternas -no inferno-, os que não acreditam naquilo em que eles acreditam.

Folha
- Como remover esse elemento de intolerância da religião?

Ferrari - Não sei como se poderia fazer para eliminar essa fonte de intolerância, mas acho que seria preciso modificar a religião, as sagradas escrituras. Tirar as agressões aos judeus, a discriminação aos homossexuais. Essas intolerâncias que estão na Bíblia se estendem no tempo e provocam os campos de concentração de Hitler, a matança de índios na América, a escravidão...

Folha
- Mas por que o fundamentalismo cristão lhe parece mais grave do que os outros fundamentalismos religiosos?

Ferrari - Acredito que as religiões têm as mesmas características, com algumas diferenças. Pelo que sei, no judaísmo não há o uso da religião como repressão, não há uma instituição como a Inquisição, com queima de incrédulos. Dos muçulmanos não conheço bastante, mas não é propriamente o que me interessa. Me interessa o Ocidente. E, neste, vejo o cristianismo como crueldade revestida de bondade.

Folha - Como fica o papel da arte em meio a esse panorama?

Ferrari - A cultura ocidental é de uma beleza estética enorme, mas sua história esteve a serviço da intolerância da igreja. Michelangelo, Giotto e tantos outros ilustraram de forma maravilhosa as torturas e as crueldades. A cultura contemporânea costuma limitar suas análises aos aspectos estéticos e muitas vezes esquece o aspecto ético. Certa vez, um crítico viu alguns trabalhos meus e disse que não eram arte. E eu lhe respondi que, se me demonstrasse que não eram arte, poderia trocar o nome 'arte' e chamá-los de outra coisa. A noção de arte muda com o tempo.

Folha
- O sr. viveu no Brasil por quase 20 anos. Como foi?

Ferrari
- Em São Paulo, conheci o Maurício Segall, que me apresentou Aracy Amaral [crítica de arte e curadora] e depois Regina Silveira, Julio Plaza [artistas plásticos]. Trabalhamos juntos na escola Aster. Foi um momento excelente de investigação formal.

Folha - Como conciliar a abordagem crítica e o mercado de arte?

Ferrari - A sorte é que minhas críticas não falam a ele diretamente. O mercado é algo esquisito, a mesma obra que não valia nada de repente vale. O que me interessa é que sigo trabalhando e sinto que não me repito. Enquanto tiver essa possibilidade, tudo bem. O problema é quando o artista não sabe mais o que fazer e começa a copiar a si mesmo.

http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u65195.shtml

 
 
 
 
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