O SONO

Eu estava recolhido ao repouso suave do aposento do sono quando ele, Orpheu, veio e ao cruzar minha porta perguntou-me:
-Vamos promover uma grande festa onírica, você não estaria disposto a vir?
Apenas limitei-me a sorrir-lhe docemente e disse-lhe:
-Tenho freqüentado a todas porém não te encontro em nenhuma.
Queria apenas encontrar-me com Deus, mas parte dele que pude eu vislumbrar, foi a que reflete a minha própria alma num grande espelho de prata e pensei: então é assim que se faz no mundo dos homens? Vejamos como me saio.
Que sejam preparados os cenários que agora daremos início a um espetáculo, e eu quero alcançar êxito, mesmo sem crer no peso da platéia, pois neste momento o mais importante é que haja uma festa teatral. A quem apostar como eu na mulher que tem a noite sobre os seus ombros como manto, é dada a garantia dos melhores lugares, das melhores apresentações.
Todos deveriam um dia ao menos, abrir suas janelas para assisitrem ao grande Carnaval Veneziano que desfila solto em nossas ruas, entusiasmados pela idéia de que só mesmo quem tem fome de mundo é que o procura avidamente com os olhos, mesmo sendo ele apenas aparente, uma miragem, como suas próprias máscaras e fantasias.
E então, já que era hora de hipnose, deixei que me fossem apresentados os amigos da imaginação, com fotos minhas que desconhecia a existência completamente e que pude contemplar em passeios inertes em uma lenta correnteza.
Entretanto, em um dado momento, vi que compulsoriamente eu agora seguia a um jovem de silhueta incrivelmente bela, porém não conseguia enxergar-lhe o rosto, e só após ter percorrido todas as veredas dos sonhos, é que o belíssimo jovem misteriosamente desapareceu, e então vim a descobrir que se tratava de Orpheu.
Eduardo Bigorna |